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Bom pastor

A chuva se lançava ao chão desmanchando a terra naquela manhã fria. Os arbustos resistiam às pancadas da água nas frágeis folhas, jogadas pelo vento. A época era de inverno. O frio, inteiro.

O vidro embaçado pela respiração de quem observa aquele mundo através da janela. Nas mãos uma xícara do café quente, que todas as manhãs era servida por Dona Eunice. Um café que só ela sabia preparar! E os bolinhos na mesa?! Tão macios como flocos de algodão. Isso afagava a alma de qualquer vivente, mesmo daqueles que geralmente vêm de noites mal dormidas. Entretanto, já me acostumava com isto. As horas noturnas eram velhas companheiras.

De uns tempos prá cá os minutos se alongavam, as noites sem sono se multiplicavam. Senão fosse os cuidados de Dona Eunice, os frios serões teriam me consumido. Mas, ela com seu carinho aquecia-me em cafés e quitutes. Uma boa alma! Sempre preocupando-se comigo. "Procure tratamento para a sua dor de cabeça" disse-me um dia. Porém, quem iria tocar prá frente o centro-médico e a farmacinha do colégio? Quem iria ensinar às crianças o caminho da fé? Ensinar... nem eu mesmo sabia mais!

Naquela manhã, chovia como nunca. Lá em cima Dona Eunice estendia a cama. Cá comigo eu era um pingo escorrendo pela vidraça, por entre o vapor cristalizado no vidro. O meu corpo respirava forte; a xícara aquecia meus dedos; e, aquele pingo rasgava caminho como a chuva lá fora. A sensação que experimentava - de fazer parte da água dominando tudo e ao mesmo tempo do nada, consumindo-se numa gota - tirava da lembrança a infernal dor de cabeça.

Um estalar de palmas interrompeu a sequência dos tique-taques do relógio na parede. Custei a dar sentidos. Levantei-me e fui até a portinhola espiar.

- A benção. Seu Tonico morreu. Discurpa l'incomodá, mais é que o enterro não pode esperá, vai tê que sê agora.

- Seu Tonico... Deus o tenha! Mas, entre homem, não fique aí na chuva.

- Prefiro não. Tenho que cuidá dos aprontamento. E o sinhô seria bom í o mais de pressa, porque foi morte de afogamento já uns dia. Uma tragédia! E o morto tá se descompondo.

- Fique tranquilo! Logo-logo estarei lá.

O homem saiu correndo rua abaixo e eu fui preparar-me para o serviço; mesmo sem compreender essa estranha morte. Pus-me a caminho para a capela do cemitério.

A chuva parecia não acabar. Derretia as vestes, desfigurando as pessoas. A família chorosa ao lado da carniça. O corpo todo envolto em gazes dentro do caixão. Tudo estava pronto. E o fizeram descer lentamente, enquanto eu dava as últimas palavras de sempre, enviando aquela alma à mesa do Senhor.

De repente a dor na minha cabeça parecia estourar-me. Tudo rodava e escureceu. Só lembro disso. Depois estava em uma casa de repouso mantida pela Igreja.

Muito tempo passou até que eu começasse a perceber - quase dois anos. Várias coisas ainda eram confusas e às vezes a dor voltava, porém já me dava por gente. Reconhecia o sabor dos bolinhos trazidos por Dona Eunice em suas visitas eventuais.

Foi neste período, de restabelecimento, que conheci Josias: padre um tanto circunspecto que preenchia seus dias com o cultivo de plantas e estudos de botânica. Ponderações bastante aluadas, bem características do lugar; as quais tinham em mim o espectador preferencial. Talvez por minha constante atenção silenciosa. Não entendia nada, mas fingia acompanhar tudo. Pois eu confundia por vezes as próprias pernas, como assimilar suas difíceis teorias - pelo menos as achava difíceis.

Com os meses ganhei maior segurança e saúde. Passei a me interessar pela Botânica de Josias. O que antes só concordava, passei a contestar; já possuía ideias, pontos-de-vista. Encontrava nele um bom amigo para atravessar um mundo tão vazio.

Dona Eunice e seus bolinhos nunca mais apareceram no jardim de sempre, com o seu sorriso materno e as gordas mãos segurando o embrulho. Falava-me com doçura, parecendo compreender a minha distância do mundo. Contava novidades e lembranças. Servia seus bolinhos ali mesmo, quando sentávamos num daqueles bancos. No entanto havia sumido. Chequei a pensar que tivesse morrido e queriam poupar-me.

As orações repetiam-se dia após dia, servidas com o café da manhã e ao deitar-se. Todos os dias eram iguais, ou quase iguais, uma ou outra coisa ganhava um caminho diferente.

- Sabe Josias, já plantei e replantei nos vasos. Nem sei quantas vezes vi as flores nascer e morrer... Acho que nunca estaremos prontos para ganhar o mundo lá fora.

- Meu amigo! Eu também pensava assim no princípio...

Antes que eu perguntasse, foi logo me falando.

- Dezesseis anos. E pensando bem, acho que não importa ficar aqui ou lá fora... E nem tu tão pouco deves preocupar-te com isso. O que fazias lá fora?

- Não entendi?!

- Ora! Tu não passavas de um ritualista, celebrando nascimentos e mortes, não era? Pois, o mesmo fazes aqui, no jardim.

A observação de Josias perturbou-me muito. Não sei porquê, mas passei a pensar nas palavras do amigo. E foi em um momento de oração que comecei a refletir. Enquanto a missa era rezada, eu pensava em Josias e suas palavras: sobre as plantas... sobre as pessoas... Quantas batizei? Tantas enterrei! E lembrei do que disse-me um dia: "A verdade está aqui, agora e entre nós; por que a jogamos constantemente fora de nosso alcance? Por que devemos uns traçar o caminho dos outros? Guiar vidas pelas nossas cegueiras! Devemos deixar as sementes brotarem onde forem lançadas. É dessas que nascem as árvores mais verdadeiras". Lembro que falei não compreender. Ele olhou-me paternalmente e perguntou: "Se uma mãe dá a luz a um filho, deve ela marcá-lo com algum sinal para que ele saiba que é filho, se já o é por nascimento?"

- Meu Deus.

Pude ouvir o eco da minha voz alta e vigorante dentro da capela, enquanto todos me olhavam com censura. Baixei a cabeça permanecendo calado o tempo todo. Não sei quanto tempo, nem mesmo quando tudo acabou. Não pensava em nada, só estava ali; olhando duas formigas que conversavam; quando alguém tocou-me no ombro. Era Josias.

- Vem! Quero mostrar-te uma coisa.

E mais uma vez saímos para cuidar das plantas. Aquilo tudo me fazia inquieto. Todos os dias as mesmas coisas. Plantas, orações... plantas, orações.

O jardim era um mundo maravilhoso, rico em vidas; no entanto um mundo que não mais me interessava. Já o conhecia muito - era capaz de cumprimentar os insetos todos pelo nome de cada um.

Lembrei de que um dia fui enviar a alma de um dos fiéis. Estava toda a família reunida na sala em torno do caixão. A mãe do morto soluçava, os irmãos cheiravam vingança, o pai aborrecido acalentava o rosto da pobre mulher. Os parentes e amigos sentidos. Ele havia morrido por uma navalha. Numa briga alguém puxara uma navalha e retalhou-lhe o corpo. Era um rapaz jovem, trabalhador - saía cedo para o serviço e só voltava com o fim do sol. Nesse dia fora atacado no caminho, onde aconteceu a briga. Eu entreguei sua alma. Conformei a família e voltei para a igreja. Ainda deveria atender a outra de minhas ovelhas.

O bom pastor sabe rebanhar suas ovelhas, guiá-las por saldáveis pastos... o pastor... ovelhas...

As aulas de botânica de Joias haviam me aberto os olhos para um mundo que antes não via. Pois, recordo-me que certo dia estava no pomar caminhando só, quando parei abaixo de uma vergamoteira para observar as formigas que caminhavam nos galhos. Elas pareciam pastores com seu rebanho. Nos ramo mais novos guardavam suas ovelhas: eram afídeos que pastavam.

Disse-me Josias, um dia, que as formigas são caçadores que aprisionam afídeos e leiteiros que ordenham esses pulgões. Alimentam-se deles.

Fui um pastor arrebanhando almas, cuidando de milhares de ovelhas para o Senhor. Não pude deixar de lembrar desses insetos.

Sentia-me agora uma ovelha pastoreada. Os muros eram altos, o jardim enorme; a casa grande e iluminada. Era-se vigiado o tempo todo - homens de branco nos longos corredores e no pátio.

Como eu não dava trabalho a eles porque passava maior parte conversando com o amigo Josias, não me davam remédios como antes. Só observavam-nos de longe.

O tempo sumia nos dias e eu passando...

Num final de tarde, sentamos eu e Josias num recanto de jardim. No céu os dois astros, um vermelho em luz, outro amarelo de sol.

A noite ainda não era feita, as sombras se espichavam do poente e os insetos tocavam-se no ar. Sentamos para conversar sobre a existência, e esta foi a última vez que fizemos isso.

Josias morre num desse dias iguais e fico só.

Mandam-me arrumar o quarto dele. Encontro sua bíblia com anotações e leio. Dentre as páginas, encontro um recorte de jornal. É o meu retrato que vejo. Fala sobre uma pesquisa que eu estava fazendo. Agora lembro o que era! Passava noites estudando nos livros antigos. Lembro que quase adoeci, porém nunca encontrei a resposta para minhas perguntas. Nada esteve escrito lá. As notas de Josias começavam a me responder.

Dentro do quarto, prisioneiro do saber, como contar tudo que descobri. Compreendo o que ele queria me dizer. Entendo todas as suas aulas de botânica.

O corpo lá está, sendo preparado e eu aqui... O que fazer? Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder sua alma? Josias sempre foi muito inteligente. Sempre soube de toda a verdade. Diziam que ele não era certo da cabeça. Por se negar a agir conforme os preceitos da entidade, o prenderam nesta casa. E agora?

- O importante é esconder as notas de Josias. Ninguém daqui pode ler isto.

O cadáver de Josias deitado com flores expressava a tranquilidade de uma boa alma. O pobre homem que descobrira toda verdade estava morto - uma força de grandes conhecimentos, estudos e dedicação. O mel da vida agora seria servido.

Nas suas notas dizia: "Deus é maior do que qualquer compreensão humana, mas nós pastores estamos arrebanhando espíritos para alimentar o mal que paira sobre a terra. Não se deve prosseguir alimentando este mal. Deve-se deixar o amor brotar da natureza das coisas como as águas do mar tornam aos rios - não precisamos bombear as vertentes, pois o próprio mar se encarrega disso".

O corpo do meu amigo descia para a terra e sua alma estava desfeita. Choro muito porque o amo. Nada pude fazer.

- Preciso tirar daqui estas notas, isto é mais importante agora. O mundo tem que acordar, antes do câncer comê-lo todo.

No quarto, antes de dormir, leio novamente suas notas. As pessoas não sabem porquê existe tanta maldade: o mal se mantém como eterno; mas deve ser superado para que não volte o Caos.

Depois de uma semana do enterro de Josias, as dores de cabeça voltaram. Os desmaios ficaram mais constantes. Também pudera, quase não me alimento! Isto os deixa preocupados, eu sei. Eles querem-me saudável.

Levado, fui para a enfermaria. Entretanto já havia escondido as anotações de Josias. Assim fiquei mais tranquilo. Poderia ficar quantos dias quisessem. E fiquei, vários.

Recebi uns bolinhos, de familiar sabor, na hora do café. Mais tarde Dona Eunice vem visitar-me na enfermaria. Beija-me as mãos. Choramos juntos. Fala da nossa comunidade. Traz lembranças. Faz muito tempo que não recebo seus cuidados; acha-me desfigurado.

- Vamos dar uma volta no jardim e olhar este sol maravilhoso.

Concordo com ela.

Antes de sairmos, passo no quarto para apanhar o livro. Estava ele exatamente como o deixei.

A entrega dele para Dona Eunice me pareceu a melhor ideia, pois ela poderia sair daqui sem ninguém perceber e revelar ao mundo toda verdade.

No jardim, longe de todos, conversamos. Falei-lhe sobre Joias. Das minhas pesquisas. Contei que encontrei a chave de tudo através das anotações de Josias. Pedi-lhe que fizesse a vontade de Josias. Que revelasse ao mundo a descoberta.

Ela não queria concordar comigo; talvez não quisesse acreditar no que eu estava dizendo ou tinha medo disto.

- "Todo corpo se desfaz como qualquer ser do universo, dentro do curso natural da matéria; porém, com as palavras mágicas do pastor, a alma eterna que a criação do infinito soprou no ser humano serve de alimento para a mais negativa energia que habita este mundo. Desta forma o Mal é mantido com vida e paira sobre a Terra. Os que tiverem olhos que vejam as coisas como são e se afastem do mal. Os que só têm ouvidos - é neles que tudo existe". Palavras de Josias.

- Por favor, Dona Eunice! A senhora é a única pessoa que pode ajudar a todos. Eu não sei quando, e nem se algum dia, sairei daqui. Aceite esta incumbência. Não é só por mim, é por toda humanidade. Aceite.

Depois de muitas súplicas, pareceu-me compreender a importância desta missão. Concordou comigo. Entreguei-lhe a bíblia de Josias.

O homem que sempre me seguia estava ao longe nos observando. Dona Eunice vira as folhas do livro, surpresa.

Disse-me ela:

- Mas... O que tem aqui? É uma bíblia como qualquer outra.

- Como?! Não tem nada escrito?

- Não.

Olho para o homem que sorri. Tudo começa a girar. Uma dor de cabeça muito forte atira com o meu corpo no chão.

Acredito que muito tempo passou. Observo hoje que minhas mãos estão trêmulas e meu corpo mais velho. Escrevi estas palavras e as lanço por sobre o muro que separa esta casa do mundo lá fora.