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Padrinhos

Cena 1

(Num pátio decorado para o casamento, entram duas comadres)

MADRINHA DA NOIVA - Comadre Mariola, não vô contá o que sucedeu com compadre Ramão.

MADRINHA DO NOIVO - Conte comadre Carola!

MADRINHA DA NOIVA - Diz qui coroné Ramão é que tá embuxando as moça virgem do Roçado Largo.

MADRINHA DO NOIVO - Vírgi Maria! Inda bem que cá na Roça Pequena coisa igual não tem acontecido. Mas digue, comé que comadre sabe?

MADRINHA DA NOIVA - Sei pouco! De comentário longe. Ouvi dizê que coroné tereré ali, tererá aqui e pimba...

MADRINHA DO NOIVO - Não digue, comadre!!

MADRINHA DA NOIVA - Já disse.

(Atrás vêm os dois compadres)

PADRINHO DO NOIVO - Não sei se esse casamento é coisa certa.

PADRINHO DA NOIVA - Uai, compadre...

PADRINHO DO NOIVO - Pois é, tô muito desalembrado... Outro dia tive um sonho com o casamento de Mundinho. Parecia coisa verdadeira.

PADRINHO DA NOIVA - Pergunte à comadre Mariola, ela deve de alembrá.

PADRINHO DO NOIVO - Hum! Mariola? É mais curta de memória que eu. Qué vê? Oh, Mariola, que nóis comeu na hora da bóia?

MADRINHA DO NOIVO - Ora, home! Dizê uma coisa dessa aí na frente do compadre.

PADRINHO DO NOIVO - Mariola, Mariola! Tô falando disso não. Comida, bóia, rango. Qual foi?

MADRINHA DO NOIVO - Sei lá home! Cumé que eu vou me alembrá do que agente inté já comeu!?

PADRINHO DO NOIVO - Viu! Tem os miolo mais mole que mingau. Cumé que vai se alembrá de casamento inté que não sei se é sonho ou de fato?

(Caminham ao fundo do pátio)

Cena 2

(Entram: Mãe, Noiva e Comadre)

NOIVA - Não caso, não caso e não caso. Já disse que não caso!

MÃE - Deixa de besteira Florisbalda. Já tamo tudo pronto; agora tu casa de carqué maneira.

COMADRE - Não qué casá causdiquê Florisbalda?

NOIVA - Com frô de mentira eu não caso. Quero frô verdadeira, de jardim.

COMADRE - Ora Florisbelda, é frô de plástico... é muita mais bonita... é bem feitinha... e também tem cheiro.

NOIVA - Tem chero de bosta! (Batendo com o pé) Se não for frô de verdade eu não caso.

(Mãe tira de um vaso as flores e entrega à filha)

MÃE - Toma cadela! Taí a tua frô. Agora cala a boca e casa.

NOIVA - Mas não caso.

MÃE - Taí a tua frô.

NOIVA - Com Mundinho eu não caso.

COMADRE - Florisbalda deixa de bobági, case logo! Tu tá embuxada. Logo, logo este bichinho nasce... e aí, como fica a cara de Cumpadre Fortuno teu pai?

MÃE - Mundinho é bom rapaiz, vai ti fazê feliz.

NOIVA - Mas não é de Mundinho este filho. É de coroné Ramão.

MÃE e COMADRE - Virgi Maria!

NOIVA - Ele me levou pras pintangueira e...

MÃE - Quete égua! Qué que todo mundo fique sabendo. O corné manda ti matá.

COMADRE - Case com Mundinho e dá um pai pro teu filho. É mió que sê mãe sem home.

NOIVA - Com Mundinho eu não caso. Mundinho é home frouxo. Que vai sê de mim? Vô passá a vida inteirinha só na vontade? Mundinho na cama, só dá é peido.

COMADRE - (Num canto de ouvido) Não seja boba! Case com Mundinho e deite com todo mundo.

NOIVA - Ah bão! Intão eu caso.

Cena 3

CORONEL - (Na multidão) Cocho, cocho! Cocho, cocho!

PAI - (Entrando) É coroné Ramão que tá chegando! Mas é uma grande alegria tê vóis micê aqui conroné.

CORONEL - Oh, porqueira! Que voceis tão fazendo aí neste quintal?

PAI - Tô casando Florisbalda, coroné.

CORONEL - Ah! Mais por que a menina há de casá compadre?

PAI - Tá no tempo, coroné; tá no tempo.

CORONEL - (Agarrando nas mãos da noiva) Deixa eu vê esta menina que eu agarrava no colo desde pequena. Tá uma mulhé. E por sinal, compadre, muito bonita. (Olha ente aos olhos da noiva, que encabula) Tá casando, é? Por quê?

Noiva - Ora, coroné Ramão... tô embuchada.

CORONEL - Com quem é que tu tá casando, minha menina?

NOIVA - Com Mundinho.

CORONEL - Ah, ah! Com aquele palerma? Mas não foi ele que...?

NOIVA - Foi não. Foi nas pitangueira.

CORONEL - Ah (surpreso) Ora faz muito bem casá. (Virando-se para o pai) Vossa filha escolheu bem o homem com quem vai casá. Mundinho é um bom rapaiz. É trabalhador. Passa o dia todinho na roça. (Virando-se para a noiva) Se precisá de qualqué coisa é só chamá pelo coroné, que lá estarei de espingarda em punho.

Cena 4

(TODOS) O padre tá chegando.

(Entra de braço com uma prostituta)

PADRE - Boa noite! Boa noite! Como estão passando todos na Roça Pequena?

(TODOS) Bença Padre!

PADRE - Deixe-me apresentar esta menina da capital. É uma sobrinha minha, um pouco distante, mas também filha de Deus. Ela veio passar uns dias em minha casa. Ordens médicas! Vai fazer um tratamento muito demorado, coitadinha. Ela sofre de hemorróidas... mas uma boa pessoa. (Voltando-se para a moça) Deus a abençoe minha filha.

MÃE - Tá tudo pronto Padre.

PADRE - Ora, vamos, vamos; deixe-me ver a noiva. (Pelas mãos traz a noiva a frente)

NOIVA - (Encabulada) Padre... ansim sê deixa eu sem graça.

PADRE - Ora minha filha, nesta noite todas as noivas ficam sem graça. (Põe a mão na barriga da noiva) Mas tu provaste do doce bem mais cedo, né?! Diga, quem é que...?

NOIVA - Ué, Padre! Vô casá com Mundinho.

PADRE - Sei filha. Mas quem é o pai do filhote?

NOIVA - (Leva o padre a frente) Conta pra ninguém não, mais foi coroné Ramão que mi levô pras pitangueira e...

PADRE - Meu Deus! Coronel Ramão. (Traz a noiva para diante dos demais) Vamos casar logo. Cadê o noivo?

(TODOS) Cadê o noivo? Cadê o noivo?

Cena 5

(O noivo chega, trazido por dois homens. Ele está de ceroulas e uma dos homens com a calça dele na mão)

HOMEM - Taí o caipira. Nóis fumu pegá ele pur ditrais das bananeira, lá no arraial de Chico Berro.

NOIVO - (Gago) Eu tô ca... ca... Eu tô ca... ca...

MÃE - Cala a boca Mundinho!

PADRE - Vamos dar início à cerimônia. Padrinhos da noiva deste lado (esquerda). Padrinhos do noivo deste lado (direita). Os noivos, por favor, aqui no centro.

NOIVO - Eu tô ca... ca... Eu tô ca... ca...

MÃE - Cala a boca Mundinho!

PADRE - Esta noite é muito importante para duas pessoas (olha para a prostituta), que vão estar juntinhas, com a graça de Deus. Os anjos estarão dizendo "amém". As estrelas terão mais brilho, etc., etc. e etc. Na presença de todos estão se unindo para o matrimônio: Mundinho e Florisbalda. Estarão unidos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, etc., etc. e etc.

NOIVO - Eu tô ca... ca... Eu tô ca... ca...

MÃE - Cala a boca Mundinho!

PADRE - Mundinho, tu aceitas esta mulher como tua esposa?

NOIVO - Eu tô ca... ca... Eu tô ca... ca...

PADRE - Parece que é "sim"! Florisbalda, tu aceitas este homem como teu marido?

NOIVA - Que home?

MÃE - Aceita!

PADRE - Então, em nome da igreja, eu os declaro casados.

NOIVO - É isso! Eu tô ca... ca... sado.

PAI - O QUÊ? Tu é casado?

NOIVO - Eu ca... ca... Eu ca... casei semana pa... passada com Ma... Mariinha, fi... filha de Chi... Chico Berro. Eu ta... tava fu... fu... fuçando nas ba... bananeira caso de pro... promessa, quando e... eles mi... mi... pegaram.

MÃE - Tem probrema não! Casa, dispois vorta pras promessa nas bananeira. Tem probrema não.

PAI - Intão, tá esperando o quê, gaiteiro? Á festa!

(Começa uma dança de quadrilha)