Redação

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As propriedades de um texto

1. Todo texto tem coerência de sentido. As frases estão relacionadas entre si. O sentido de uma frase depende do sentido das demais com que se relaciona. Isto é o contexto, ou seja, é uma unidade maior em que uma unidade menor está inserida. Assim, a frase (unidade maior) serve de contexto para a palavra; o texto, para a frase, etc. O contexto pode ser explícito, quando é expresso com palavras, ou implícito, quando está embutido na situação em que o texto é produzido.

Observe o texto abaixo, de Carlos Drummond de Andrade:

Faltam elementos de ligação entre as partes no primeiro parágrafo, mas a última frase – Assim em plena floresta de exclamação, vai-se tocando pra frente. – produz a unidade de sentido. O texto deixa de ser um amontoado aleatório de exclamações, adquirindo coerência e, dessa forma, mostrando o caráter estereotipado de nossa linguagem cotidiana.

2. O texto é um todo organizada de sentido; ele pode ser verbal (um conto, por exemplo), visual (um Quadro), verbal e visual (um filme)... Mas, em todos esses casos, será delimitado por dois espaços de nãosentido, dois brancos: um antes de começar o texto e outro depois. É o momento antes de se tomar conhecimento do texto e o momento depois de conhecê-lo. Agora o texto existe.

3. O texto é produzido por um sujeito num dado tempo e num determinado espaço. Esse sujeito, por pertencer a um grupo social num tempo e num espaço, expõe em seus textos as ideias, os anseios, os temores, as expectativas de seu tempo e de seu grupo social. Todo texto tem um caráter histórico, não no sentido de que narra fatos históricos, mas no de que revela os ideais e as concepções de um grupo social numa determinada época. Portanto, é necessário entender as concepções existentes na época e na sociedade em que o texto foi produzido para não correr o risco de compreendê-lo de maneira distorcida. Poderíamos dizer que um texto é, pois, um todo organizado de sentido, delimitado por dois brancos e produzido por um sujeito num dado espaço e num dado tempo.

Duas conclusões podemos tirar dessa noção:
a. uma leitura não pode basear-se em fragmentos isolados de texto, já que o significado das partes é determinado pelo todo em que estão encaixadas;
b. uma leitura, de um lado, não pode levar em conta o que não está no interior do texto e, de outro, deve levar em consideração a relação, assinalada, de uma forma ou de outra, por marcas textuais, que um texto estabelece com outros.

O que é um texto?

Texto é tudo aquilo que estabelece comunicação. Existem textos orais - como as conversas, o conto falado, os causos e histórias; textos escritos - como o conto, a fábula, o romance, a receita de bolo, a carta; textos visuais - como as placas, o semáforo, a mímica, a pintura; textos audiovisuais - como o teatro, o filme, o balê.

A leitura de um texto não é a simples decodificação de palavras ou a mera soma de suas partes, mas é dada pelas múltiplas relações que se estabelecem entre os elementos textuais. Num texto o sentido de cada constituinte é definido pela relação que mantém com os demais objetos do todo. Não fosse esse dado, a pequena tira humorística acima admitiria a seguinte leitura: que o governo de FHC (Fernando Henrique Cardoso – presidente de 1994 a 2002) merece nota dez e que anda a dez quilômetros por hora. Qualquer leitor médio de texto diria que interpretá-lo dessa forma significa não tê-lo entendido. Interpretando a charge, percebemos que o significado do quadrinho um se altera consideravelmente e provoca decepção ao confrontá-lo com o segundo. "Dez" passa a ser lido como um indicador de velocidade e não como a nota máxima de uma escala convencional. Com a quebra de expectativa criada pelo quadrinho um, produz-se um efeito de humor, e o texto, no seu todo, passa a ser uma sátira à lentidão com que se tomam as decisões nesse governo.


DIVERSOS TIPOS DE TEXTO

Texto é tudo aquilo que estabelece comunicação. Assim, há uma diversidade quanto aos tipos de texto. Existem os texto orais – como as conversas, o conto falado...; os textos escritos – como o romance, a receita, a carta...; os textos visuais – como as placas, o semáforo, a mímica...; os textos audiovisuais – como o teatro, o filme...; e sinais textuais percebidos pelo olfato, tato e gosto.

Texto analisado:

O galo que logrou a raposa

Um velho galo matreiro, percebendo a aproximação da raposa, empoleirou-se numa árvore. A raposa, desapontada, murmurou consigo: "Deixe estar, seu malandro, que já te curo!..." E em voz alta:

- Amigo, venho contar uma grande novidade: acabou-se a guerra entre os animais. Lobo e cordeiro, gavião e pinto, onça e veado, raposa e galinha, todos os bichos andam agora aos beijos, como namorados. Desça desse poleiro e venha receber o meu abraço de paz e amor.

- Muito bem! – exclama o galo. Não imagina como tal notícia me alegra! Que beleza vai ficar o mundo, limpo de guerras, crueldades e traições! Vou já descer para abraçar a amiga raposa, mas... como lá vêm vindo três cachorros, acho bom esperá-los, para que também eles tomem parte na confraternização.

Ao ouvir falar em cachorro, Dona Raposa não quis saber de histórias, e tratou de pôr-se ao fresco, dizendo:

- Infelizmente, amigo Có-ri-có-có, tenho pressa e não posso esperar pelos amigos cães. Fica para outra vez a festa, sim? Até logo.

E raspou-se.

Contra esperteza, esperteza e meia.

(LOBATO, Monteiro. Fábulas. 19 ed. São Paulo. Brasiliensa, s.d.p. 47)

Num primeiro nível de leitura, pode-se depreender os seguintes significados:
•Um galo espertalhão, consciente de que a raposa é inimiga, coloca-se sob proteção, fora do alcance das suas garras;
•A raposa tenta convencer o galo de que não há guerra entre os animais e que se instaurou a paz;
•O galo finge Ter acreditado na fala da raposa, mostra-se alegre e convida-a a esperas três cães para que também eles participem da confraternização;
•A raposa, sem negar o que dissera ao galo, alega Ter pressa e vai embora.

Num segundo nível, pode-se organizar esses dados concretos num plano mais abstrato:
•Um dos personagens do texto (o galo) dá mostras de Ter consciência de que os animais estão em estado de guerra;
•Outro personagem (a raposa) dá mostras de que os animais estão em estado de paz;
•No nível do fingimento, isto é, da aparência, ambos percebem Ter entrado em acordo, mas, no nível da realidade, isto é, da essência, os dois continuam em desacordo.

Num terceiro nível, pode-se imaginar uma leitura ainda mais abstrata, que resume o texto todo:
•Afirmação da belicosidade (da guerra) – negação da belicosidade;
•Afirmação da pacificação.

Tudo isso, como se viu, no nível apenas do fingimento.

Os três níveis de leitura, como se pode notar, distinguem-se um do outro pelo grau de abstração: o primeiro nível depreende os significados mais complexos e mais concretos; o terceiro nível depreende os significados mais simples e abstratos.

As diversidades se manifestam no nível da superfície do texto, e a unidade se encontra no nível mais profundo

Deste modo pode-se afirmar que o texto admite três planos distintos na sua estrutura:
1.uma estrutura superficial, onde afloram os significados mais concretos e diversificados. É nesse nível que se instalam no texto o narrador, os personagens, os cenários, o tempo e as ações concretas;
2.uma estrutura intermediária, onde se definem basicamente os valores com que os diferentes sujeitos entram em acordo ou desacordo;
3.uma estrutura profunda, onde ocorrem os significado mais abstratos e mais simples. É nesse nível que se podem postular dois significados abstratos que se opõem entre si e garantem a unidade do texto inteiro.


Observe, a seguir, a diferença entre texto informativo e texto literário:

Texto informativo: Não ocorre no texto nenhum palavra empregada em sentido conotativo (todas estão no seu sentido verdadeiro – denotativo). O objetivo principal do emissor (escritor do texto) é de informar o leitor. Se duas pessoas lerem esse texto não poderão interpretá-lo de maneira diferente porque o texto só permite uma interpretação. Aqui o autor é um jornalista, e pressupõe-se que todos os fatos sejam verdade, até mesmo porque os locais citados podem ser localizados num mapa. É, portanto, um texto informativo – a narrativa jornalística é exemplo de texto informativo.

Texto literário: Há no texto palavra ou expressão empregadas em sentido conotativo, como: "um vermelho indeciso", "voo negro dos urubus", "Tinha o coração grosso", "escaldava os pés"... O narrador não se limita a expressar objetivamente aquilo que vê; ele penetra no interior das personagens, revelando-nos estados de espírito das mesmas ("...Fabiano desejou matá-lo.", "...Fabiano teve pena."). Aqui, o objetivo do narrador é de informar e despertar emoções no leitor. Trata-se de um texto literário, uma vez que a palavra é trabalhada (existe a presença da conotação, das figuras de linguagem) – um romance é exemplo de texto literário.

Diferença entre texto literário e texto informativo

Texto Informativo

No lombo da jumenta Branquinha estão empilhados os pertences da família: duas panelas pretas, três pratos, três colheres, três copos, uma moringa e uma esteira. Há ainda um rádio, com defeito, que ora vai no lombo da jumenta, ora na mão de Zenaide ou João Honorato do Nascimento. Isso, mais a roupa do corpo, é tudo que o casal possui. Na semana passada, Zenaide e João Honorato, ambos com 30 anos, mais a filha Cícera, ou "Ciça", de 11, estavam na estrada. Depois de juntar tudo o que tinham, atrelar a jumenta e chamar a cachorra Jaqueline, eles deixaram sua cidade natal de Iguatu, no Ceará, e se puseram a caminho na escaldante BR-020, com direção a Canindé, 230 quilômetros ao norte. Ali, se houver emprego – talvez seja pedir demais -, há a presença de um santo considerado forte e generoso, o padroeiro local, São Francisco das Chagas.

Veja. 17 ago. 1983, p. 56

Texto Literário

VIDAS SECAS

A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

- Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinha deixado os caminhos, cheios de espinhos e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores.

Sinhá Vitória esticou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.

Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 16 ed. São Paulo, Martins, 1967. P. 8

Ensino com Tecnologia - Professor Osvaldo Andrade
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